Kick in the teeth

domingo, outubro 05, 2014

Um verdadeiro murro no estômago. Porque neste blog sempre houve espaço para falar de coisas sérias. Este é um desses momentos. Um momento em que a tristeza, a impotência, a fragilidade da vida vem ao de cima. Um momento em que tudo parece ficar reduzido a tão pouco.

10h40 da manhã. Abro o portão de casa para sair em direção ao carro. Destino: ginásio. Assim, sem mais nem menos, ouve-se uns gritos. Ainda um pouco abafados. O meu namorado: "Deixa-me ouvir". Deixei, claro. Os gritos repetem-se. Mais altos desta vez. Muito mais altos. E agora percebe-se perfeitamente: "Ajudem-me, por favor". Largámos tudo no meio do chão. O meu namorado desatou a correr em direcção aos gritos. Atirei tudo para dentro do quintal num ápice e desatei a correr também em direção aos gritos. "Ajudem-me!". Mais perto os gritos. Uma vizinha tenta amparar o marido que está a cair para o chão, a perder os sentidos, a perder as forças, a perder a respiração. "Liga para o 112, rápido, por favor". Pedi ao meu namorado. Assim fez. Mais pessoas chegaram: 5, entre elas os meus sogros. "Deitem-no no chão, virado para o lado esquerdo", disse alguém do número de emergência. O marido da vizinha ainda tinha consciência, os olhos estavam abertos, mas já não conseguia falar. Transpirava muito. Muito. Tinha pulso. Com dificuldade conseguimos deitá-lo no chão. Fui buscar 3 almofadas. Uma para a cabeça e outras duas para segurar as costas na posição que nos tinham mandado deitar o senhor. Tirámos-lhe o casaco para que pudesse respirar melhor. Cada vez mais roxo. Não era epilepsia, a língua não estava a impedir a respiração. Mas o senhor respirava cada vez pior. "Porque não estudei medicina?". Teria sido tão útil, tão útil mesmo! Mas não sabia mais o que fazer. Nenhum de nós. Em cerca de 15 min o INEM chegou. Reanimação. Mais reanimação. E incessantemente tentaram reanimá-lo. "Quem é familiar aqui?", perguntou um deles. "O seu marido esteve em paragem cardíaca 10 minutos, tentámos reanimá-lo, conseguimos, mas ele está muito instável. O prognóstico é muito reservado. Ele pode ter uma nova paragem cardíaca a caminho do hospital. É importante que tenha consciência que ele pode morrer nas próximas horas", disse um dos enfermeiros. Apesar dos nervos, a senhora agradeceu a sinceridade. "Obrigada por estar a ser sincero, prefiro que me digam a verdade". No meu íntimo partilhei da mesma opinião da senhora. Não a manifestei, mas concordei com ela interiormente. Tentei reconfortá-la e que ficasse um pouco mais calma naquele momento de aflição, mas... só ela sabia a dor que sentia, só ela! "Deixem-me chorar", dizia. Estava no seu direito. Claro que estava. Ninguém tinha o direito de fazê-la conter as lágrimas. Precisava de soltar a sua dor. A ambulância não arrancou logo. Mais uma paragem cardíaca. Precisavam estabilizar o senhor. Conseguiram uma vez mais. Arrancaram finalmente. Mas... que mais há a dizer? Foi um adeus ali. Um adeus para sempre. "Já não tenho mais marido", dizia a senhora. Ele há-de ser sempre o marido dela. Mas foi-se a presença de um amor de uma vida. Foi-se.

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6 comentários

  1. Que coisa tão triste, mas a vida é mesmo assim não é? Hoje estamos aqui, amanhã não sabemos. :(

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  2. Que episódio tão triste e tão terrível. A prova de que deveríamos dar mais valor ao que temos, especialmente à nossa saúde!

    \ Indigo Lights

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  3. meu deus!! a realidade da vida passa-nos tão ao lado!! ;(
    beijinhos;)

    http://belezademulheremae.blogspot.pt

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  4. Que história triste... infelizmente acontece com frequencia :(
    Beijinhos da La Burguesinha*

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  5. É mesmo um murro no estômago :( a vida é tão efémera...

    Beijinhos

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  6. É muito triste :( Infelizmente é o meu dia a dia. Nunca é fácil lidar com estas situações. E não consigo imaginar a dor de perdermos alguém que amamos desta forma.

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